O que nos salva?

Não sei… Nos salvar do quê? Para que o salvamento? Salvar de si? Dos pesadelos, dos assaltantes noturnos pelo viés dos sonhos, dos amigos que decepcionamos, das lembranças carregadas de desafetos e disfarçadas pelos afetos?

Acredito que exista um dos caminhos para o salvamento: ir ao encontro da salvação (melhor encontro de si) pela oração. Salve Rainha, me salva:

Salve Rainha

Salve, Rainha, Mãe de misericórdia,
Vida, doçura e esperança nossa, salve!
A vós bradamos, os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando
Neste vale de lágrimas.

Eia, pois, advogada nossa,
Esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.
E depois deste desterro,
Mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre.

Ó clemente, ó piedosa,
Ó doce sempre Virgem Maria!

Rogai por nós, Santa Mãe de Deus,
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
Amém.

A palavra da oração, a palavra amiga, o abraço pelo olhar, a escuta nos salva. Atenta aos sentimentos, a palavra desenvolve o ouvir, de ouvidos abertos, no cenário do cotidiano, na busca da conexão com as suas dores e alegrias, nas nossas escolhas, mesmo que seja necessário ir ao abismo à procura da própria luz para a compreensão da sombra e tentar iluminar o entorno com o sagrado da existência.

2026 chegou! E, com entusiasmo, esperamos – com o verbo esperançar (Paulo Freire) –, sonhamos o impossível: a boniteza do mundo sem guerra, sem fome, sem violência, sem ganância ao poder e com voracidade ao saber.

Sim, na lucidez de pequenos gestos – no olhar ao outro ao lado – a criança, o adolescente, a juventude, o velho. E que possamos nos salvar com a canção!

Força Estranha (Caetano Veloso)

Eu vi um menino correndo

Eu vi o tempo

Brincando ao redor do caminho daquele menino

Eu pus os meus pés no riacho

E acho que nunca os tirei

O Sol ainda brilha na estrada, e eu nunca passei

Eu vi a mulher preparando

Outra pessoa

O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga

A vida é amiga da arte

É a parte que o Sol me ensinou

O Sol que atravessa essa estrada que nunca passou

Por isso uma força me leva a cantar

Por isso essa força estranha

Por isso é que eu canto, não posso parar

Por isso essa voz tamanha

Eu vi muitos cabelos brancos

Na fronte do artista

O tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece

Aquele que conhece o jogo

Do fogo das coisas que são

É o Sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão

Eu vi muitos homens brigando

Ouvi seus gritos

Estive no fundo de cada vontade encoberta

E a coisa mais certa de todas as coisas

Não vale um caminho sob o Sol

E o Sol sobre a estrada, é o Sol sobre a estrada, é o Sol

Por isso uma força me leva a cantar

Por isso essa força estranha

Por isso é que eu canto, não posso parar

Por isso essa voz tamanha

Por isso uma força me leva a cantar

Por isso essa força estranha no ar

Por isso é que eu canto, não posso parar

Por isso essa voz tamanha

Suely Tonarque